Anacleto: "Apoio da comunidade e mudança da visão sobre a atuação da polícia foram primordiais"

Porto Seguro já figurou entre as cidades mais violentas do Brasil, com um índice de mais de 100 assassinatos por ano. Mas, nos últimos cinco anos, o município tem registrado uma queda acentuada neste índice. Só no último ano, houve uma redução de mais de 38% no número de homicídios. 

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Nos seis primeiros meses de 2020, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, ocorreram 18 homicídios, 10 mortes violentas a menos que o mesmo período do ano passado, ano em que já havia sido registrada uma redução significativa de homicídios. “Esse índice, eventualmente, pode aumentar por algum desajuste ou algum conflito, mas não significa que vá voltar retornar aos patamares de anos atrás de 140 homicídios no ano”, analisa o comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar de Porto Seguro, o tenente-coronel Anacleto França.

CINCO ANOS NO COMANDO - Há 30 anos na Polícia Militar, os cinco últimos deles à frente do 8º BPM (até o momento o segundo comandante que mais tempo ficou neste Batalhão), França tem trabalhado para reduzir a criminalidade nos municípios que fazem parte da sua área de atuação (Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Belmonte). Segundo ele, são municípios que possuem uma característica diferenciada em relação a outros do Estado, por possuírem uma população flutuante elevada nos períodos de alta estação – são áreas turísticas, contam com uma grande área territorial e, além disso, há a existência de organizações criminosas. “Não existe um local com a demanda e a complexidade no interior do Estado como é a Costa do Descobrimento”, avalia. 

Para o tenente-coronel, um dos principais desafios que enfrentou quando assumiu o comando do 8º Batalhão, em novembro de 2015, foi identificar todos os fatores que levavam ao alto índice de homicídios. “Depois de identificado esses pontos, passamos a atacá-los constantemente, não apenas nos momentos de crise. Estamos constantemente atentos à dinâmica do crime, em especial às organizações criminosas”, destaca ele, ao se referir também a crimes contra o patrimônio, como roubos de carros e residências. 

Em relação aos homicídios, França diz que o foco principal foi identificar os autores e os mandantes. “Com a identificação desse binômio e o mapeamento do deslocamento da criminalidade na região, conseguimos definir os locais onde colocar o policiamento”.  

PARCERIAS ESSENCIAIS – O comandante do 8º Batalhão destaca que o apoio do Ministério Público, da Polícia Federal (PF) e de forças policiais de outros municípios da região é primordial para a desarticulação de quadrilhas criminosas. “Ações de repressão e de inteligência foram determinantes para o enfraquecimento dessas organizações, que ainda persistem na atuação criminosa, mas que já perceberam a força da polícia”.

Em setembro deste ano, por exemplo, em uma ação conjunta com a PF, a Polícia Militar apreendeu uma metralhadora, quatro fuzis, uma submetralhadora, mais de 700 munições, 15 carregadores e quatro coletes balísticos. A mesma operação resultou ainda na morte de quatro líderes de organizações criminosas e na apreensão de grande quantidade de drogas. 

DESAFIOS - Ampliar ainda mais a sensação de segurança na região é o principal desafio apontado por França. “O crime é dinâmico e o Estado, por vários fatores, muitas vezes não tem a capacidade de acompanhar essa dinâmica. O principal desafio é manter uma condição de visão estratégica e tática na prevenção do crime e melhorar as condições de efetivo da unidade que, historicamente, sofre com um número que precisa ser constantemente complementado, especialmente no período que há um aumento no fluxo de pessoas”.

FATOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO – Para o comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar, a grande conquista nestes últimos cinco anos foi conseguir que a população entendesse “segurança como fator de desenvolvimento econômico”. De acordo com França, havia um entendimento de que a polícia era um “dificultador” das ações na cidade por ter como papel de estabelecer ou reestabelecer a ordem. “Havia a ideia de que, às vezes, em uma cidade turística a ação da polícia era prejudicial. Essa visão mudou. Hoje, essa interação (comunidade/polícia) é constante e tem ajuda, significativamente, tanto como no apoio moral e no apoio físico - através de convênios, de doações, de informações”, comemora França.  

“Retirar Porto Seguro do clima de insegurança foi um desafio e foi uma vitória importante para toda a sociedade de modo geral”, fez questão de destaca o tenente -coronel.

OUTRAS CONQUISTAS – França ressalta que a segurança pública foi inserida no contexto da Costa do Descobrimento. “Não só nos momentos de crise e de grandes problemas, mas no contexto geral da região”.

Como exemplo, ele destaca a instalação do monitoramento com câmeras em cidades como Belmonte e agora no distrito de Santa Maria Eterna; o estabelecimento de policiamento em lugares onde não havia, como Caraíva; as rondas no interior; e a uma rede de proteção às mulheres. “Temos ainda a modificação da estrutura física do prédio Batalhão, que foi completamente remodelado; a aquisição de equipamentos por parte do Governo do Estado”.

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PROJETOS -  Para o próximo ano, pós-pandemia, o comandante do 8º Batalhão revela que a meta é interiorizar mais o policiamento e aprimorar o treinamento e a capacidade dos policiais em desenvolver o policiamento, melhorando ainda mais as condições de trabalho deles e, além disso, manter o foco constante no enfrentamento às organizações criminosas. “Precisamos ter mais capacidade de identificar os problemas preventivamente e atuar em cima deles com os recursos que nós temos. Isso é um desafio enorme porque todos os profissionais já são bastante demandados. Estamos com um processo enorme de certificação da nossa área. Estabelecendo protocolos de atuação para diminuir o erro. A polícia não pode errar”, avalia.  

MISSÃO - “Do dia que eu assumi o comando do 8º Batalhão, até o dia que eu for sair, a minha visão de responsabilidade em relação ao meu dever funcional, a minha função e a minha missão será a mesma”.  França destaque que sua missão será cumprida até o momento que o governo do Estado entender que ele ali deva permanecer. “Podem ter certeza que vai ser cumprida até o último momento da minha missão aqui na Costa do Descobrimento”, conclui.