Antiga feira da Santos Dumont (Urbino Brito)

Teoney Guerra * - A cidade que Eunápolis é hoje, em quase nada lembra o minúsculo povoado que lhe deu origem, criado a partir de pequenos e rústicos casebres e estabelecimentos comerciais, muitos feitos de taipa ou madeira e cobertos de palha, que forneciam alimentos, bebidas, gêneros de primeira necessidade e utensílios aos trabalhadores do “ramal”, a estradinha que ligaria a cidade histórica de Porto Seguro “ao nada”.  

Sim, “ao nada”, porque a estrada cuja construção teve início em Porto Seguro em meados de 1945 e terminou 64 quilômetros depois, em fins de 1946, literalmente, não ligou Porto Seguro a lugar nenhum. Teve a obra concluída em um ponto onde, futuramente, se cruzaria com outra rodovia a ser construída, a BA 02. 

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Concluído o “ramal”, muitos trabalhadores desempregados e donos das pequenas biroscas permaneceram naquele local, aguardando a nova obra, que só teve início no final de 1950. Para inaugurar o acampamento da construtora EMENGE, encarregada da construção de um dos trechos da BA 02 – a obra era dividida em trechos, cada um a cargo de uma construtora –, o seu engenheiro-chefe, Antônio Gravatá Filho, pediu ao então pároco de Porto Seguro, o padre Emiliano Gomes Pereira, que celebrasse uma missa no local. 

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A missa foi celebrada, no dia 5 de novembro daquele ano, e a data, aclamada como de fundação do povoado, já denominado de “Sessenta e Quatro”, ou “Quilômetro Sessenta e Quatro”. 

A partir daí, o casario se expandiu pelas áreas adjacentes ao acampamento, não distante da fonte de água: a bica, com a construção de residências, pequenos estabelecimentos comerciais e pensões. Construções rústicas, quase todas de “meia-água” e cobertas com “taubilhas”. 

A povoação originada pelas “biroscas” que vendiam gêneros alimentícios, bebidas e utilidades, se desenvolveu, tendo como principal fonte propulsora a atividade comercial. Vocação manifestada tão cedo, e tornou o ainda povoado principal centro fornecedor de produtos e centro de compras da microrregião. Processo esse iniciado a partir do início da década de 1960, pelos pombalenses, e consolidado na década seguinte, após a construção da rodovia BR 101, tendo à frente, os capixabas. 

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Dois ciclos econômicos contribuíram, sobremaneira, para o desenvolvimento econômico, não apenas de Eunápolis, mas de todo o extremo-sul baiano. O ciclo madeireiro, entre os anos 1970 e 1980, e o ciclo da implantação dos empreendimentos de celulose, entre fins da década de 1980 e o início dos anos 2000. Tempos de grandes transformações socioeconômicas, fundiárias e ambientais em toda a região. 

Nessas três décadas, quando transcorreram também importantes fatos políticos, como o movimento pela emancipação do povoado, que o fez município em 1988, Eunápolis se tornou também polo de serviços, em especial, nas áreas da saúde e educação. 

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Tendo a cidade como polo de comércio e serviços, o município se desenvolveu também nas áreas da agricultura, especialmente com o café e o mamão, pecuária e na agroindústria, e hoje, além fazer parte do mapa mundial da indústria de celulose, produzindo mais de um milhão de toneladas, sedia uma moderna empresa do ramo de proteína animal, que, por dia, abate 45 mil frangos e produz um milhão de ovos. 

Eunápolis é hoje centro comercial da região

Naquele longínquo 5 de novembro, durante a missa, na homilia, o padre Emiliano Pereira afirmou: “Aqui há de surgir um centro progressista, onde cristãos haverão de elevar bem alto os nomes de Jesus e do Brasil”. Frase que, há muito, é considerada, um vaticínio. 

E não poderia ser diferente, uma vez que hoje, 70 anos depois, o ex-povoado, agora denominado de Eunápolis, é uma das vinte mais importantes cidades da Bahia, com população de 114.396 habitantes, e uma economia com Produto Interno bruto (PIB) de R$ 2,2 bilhões e o PIB Per Capta de R$ 20.112,54, de acordo com dados do IBGE. 

* Teoney Araújo Guerra é jornalista provisionado (MTb 2166-BA) e Corretor de Imóveis (Creci-BA-5ª Regional nº 17.397)