Contrariando a tradição de vida andarilha, povos ciganos e circenses da Bahia viram-se diante da necessidade de ficarem confinados por causa da pandemia de covid-19. Sem endereço fixo, muitos deles não têm acesso às políticas públicas e, coibidos de viajar e exercer suas atividades comerciais, já estão passando fome, conforme denuncia o Instituto Cigano Brasileiro (ICB). Com o segundo maior número de acampamentos ciganos do país, a Bahia tem 53 cidades com presença dessa população, segundo dados do IBGE (2011).

De acordo o bispo referencial da Pastoral dos Nômades, Dom José Edson Santana, o maior acampamento cigano do estado fica em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), mas também há forte registro de presença deles em Monte Gordo e Jacobina.

Dom Edson convive com ciganos em Eunápolis, extremo sul do estado, onde existem pelo menos 50 famílias da etnia calon. Estudioso desses povos, ele conta que as primeiras famílias ciganas chegaram ao país através da Bahia, ainda no Brasil Colônia.

Preocupada com a situação dessa população, a Pastoral dos Nômades emitiu uma carta com orientações para evitar a contaminação, uma vez que os povos ciganos têm fortes agrupamentos familiares. Entre as recomendações, a igreja pede que essa população suspenda suas festividades que possam gerar aglomeração e orienta que os circos cancelem as atividades com crianças e idosos, deixando as lonas, ônibus e trailers abertos.

Rifa e até caça

Coordenadora do ICB na Bahia, a cigana calon Edvalda Bispo, a Dinha, mora em Porto Seguro junto com outras 50 famílias. Funcionária da prefeitura municipal, ela conta que já chegou a rifar uma roupa típica para poder ajudar o povo da sua comunidade que sofre com a pandemia. A cidade tem dez infectados, segundo dados oficiais da Secretaria Estadual da Saúde (Sesab).

“Eu costumo dizer que, embora a gente seja um povo tradicional, somos também um povo esquecido, tanto faz numa pandemia ou não. Aqui as coisas pioraram porque ninguém consegue sair para vender um pano de prato. Se os ciganos não derem as caras, se não batalharam para ter o que comer, passa como um povo invisível”, comenta.

Segundo Dinha, foi ela que conseguiu levar a primeira sala de aula para o bairro do Parque Ecológico, onde eles se concentram. A coordenadora conta que fez esse esforço para que seu povo tenha melhor educação e passe a saber mais sobre direitos.

“Eu fiz questão de trazer os cadastradores do Bolsa Família para cá e hoje todos são incluídos no programa”, acrescentou.