OPINIÃO
Publicado em 09/03/2010 às 11h55, atualizado 10/03/2010 às 15h42

Vigilância Sanitária de Eunápolis está falha

Por Marcos Pontes, professor e colaborador do RADAR64

Leio aqui no RADAR64 que a Vigilância Sanitária fará incursões pelos salões de beleza. Ótimo, que assim aconteça. Se há risco, porém, nos equipamentos utilizados no embelezamento e nos produtos químicos utilizados como cosméticos, problemas tão ou mais sérios se espalham pela cidade longe dos olhos dos fiscais da saúde pública.

Na minha ansiedade e insegurança de consumidor, confesso nada estressado com as condições sanitárias dos estabelecimentos que freqüento seja para não ficar paranóico, seja para não me enervar, gostaria que todos os estabelecimentos onde se manipulam alimentos, medicamentos ou instrumentos cirúrgicos apresentassem bem à vista o alvará da vigilância sanitária.

Qualquer cidadão minimamente interessado pode, por exemplo, conferir a temperatura dos refrigeradores dos supermercados, principalmente às segundas-feiras pela manhã com a temperatura recomendada pelos fabricantes dos alimentos ali estocadas. Já me deparei com temperatura até 7ºC acima da temperatura mínima sugerida pelo fabricante.

Alimentos armazenados numa temperatura acima da recomendada permitem a instalação e proliferação de colônias de microorganismos nocivos à saúde, podendo levar de diarréias facilmente curáveis a infecções mais sérias.

Por conta desse armazenamento errado, seja para economizar energia, seja por falta de calibragem dos equipamentos, o fato é que não é raro acontecer de encontrarmos produtos sem condições salutares de uso. Eu mesmo já me vi comprando peixe estragado ou carne fora de condições de uso. Sem falar nas muitas embalagens rasgadas.

Nas lanchonetes também não são raras as observações de condições contrárias à boa higiene e desrespeito à saúde dos usuários. Pisos sujos, alimentos estocados próximos a fontes de contaminação, como lixeiras e produtos de limpeza, sabe-se lá em que condições de higiene, chapistas e atendentes sem gorro ou rede nos cabelos e luvas são artigo raro e em extinção.

Mas supermercados, restaurantes e lanchonetes ainda não são os pontos mais graves nessa negligência com a saúde pública.

Tenho vários amigos militando nessa área, seja como médicos ou enfermeiros, seja como funcionários de unidades de saúde. Fora alguns absurdos que me contam relativo ao pouco caso que alguns deles apresentam com o bem estar dos paciente, as intrigas que ocorrem nos bastidores e as puxadas de tapetes políticas, muita coisa escabrosa já me foi contada outras observei sem muito exercício de perspicácia.

Esses amigos já me contaram, por exemplo, que o autoclave do CEO, o centro de atendimento odontológico da prefeitura, está quebrado e as ferramentas cirúrgicas são esterelizadas no Hospital Regional, contrariando normas internacionais de assepsia. Pior, essas ferramentas chegam de volta ao CEO embrulhadas em papel e este apresenta, vez por outra, pequenos rasgos, flagrantemente comprometida a esterilização.

Nessa mesma unidade o bisturi elétrico está quebrado, remendado no improviso. O velho “armengue”, a tentativa de médicos dedicados em ajudar a melhorar a vida de pacientes menos favorecidos.

Mais relatos assustadores. No hospital onde funciona o Hospital Regional enquanto as “obras de igreja” do Regional não acabam – algo que ninguém pode afirmar com certeza quando ocorrerá – existe um ralo dentro do centro cirúrgico. Espantado, caro leitor? Também fiquei quando ouvi isso. Existe um ralo no local que deveria ser o mais asseado possível. Dentro do centro cirúrgico há um foco monstruoso de infecção. Não repeti isso à toa ou por sofrer de Alzeheimer, mas para mostrar enfaticamente meu susto e minha indignação.

Nas poucas vezes em que entrei em hospitais ou unidades de saúde, sejam particulares ou públicas, a observância de situações de desrespeito ou pouco caso com a clientela foram claras. Já aconteceu mesmo de um médico plantonista pedir minha ajuda para segurar uma jovem que havia tentado o suicídio e passaria por uma lavagem estomacal. Espera aí! Eu deveria deter uma paciente no momento em que estava apenas visitando um amigo internado? Pode rir, amigo leitor. Hoje eu também rio, mas essa não é a função de um leigo e despreparado usuário, mas dos próprios agentes assalariados para atenderem o público.

O mais assustador, porém, deixar para falar no final.
Esta informação veio de um amigo cirurgião que, por motivos óbvios omitirei o nome, e que foi demitido do serviço público municipal de saúde por exigir melhores condições materiais de trabalho. Este amigo cirurgião me garantiu que NENHUMA unidade de saúde pública do município tem alvará da Vigilância Sanitária. Seja posto de saúde, seja o CEO ou o Hospital Regional, NENHUMA, repito, dessas unidades tem alvará sanitário.

Enquanto esse tipo de serviço for entregue a amigos de políticos, a administração das unidades for entregue a gente incapacitada tecnicamente a exercer as funções, os amigos tiverem que fiscalizar amigos e confraternizarem-se nos finais de semana em churrasquinhos em seus quintais, o amigo de clube evitar exigir do outro a observância das normas de funcionamento sanitário de seus estabelecimentos, nós, pagadores de impostos que não sabemos para onde vai esse dinheiro, estaremos sujeitos a comprar peixe estragado e à mercê das bactérias e vírus que infestam as dependências médicas da cidade.

Só lembrando. Durante a segunda administração anterior à atual, o AMES, hospital particular que “emprestou” (sabe-se lá a que preço) suas dependências para o funcionamento do Hospital Regional, teve seu funcionamento embargado por falta de condições sanitárias. O nobre concidadão lembra-se disso? Eu lembro. E pelo visto os problemas não foram sanados, apenas maquiados e empurrados para debaixo do tapete.

Atualização
Cometi um erro na elaboração desse texto e aqui me penitencio na esperança de não ter causado males à pessoa a que me referi anteriormente.

No texto original me referi à senhora Ciça Guerrieri, coordenadora da Vigilância Sanitária, como indicada política ao cargo. Errei! A referida senhora é concursada e ocupa o cargo dentro das exigências legais.

Agradeço ao cidadão que me corrigiu e peço desculpas à senhora Ciça pela minha falha. O fato de eu não ser jornalista, mas um cidadão que sente-se ultrajado com os descaminhos de alguns serviços prestados à população, não me dá o direito de cometer falhas dessa natureza e me envergonho de cometê-las. Quero deixar claro, porém, que não me retrato por qualquer ponto outro explorado nesse artigo.

Nos comentários recebo ofensas e até sugestões de que mantenha para mim as minhas opiniões. Errado também quem faz tais propostas. Os maiores problemas por que passamos são agravados justamente pela passividade de nós, brasileiros, que engolimos quietos e calados quando somos mal servidos. Eu protesto e esse direito me é dado pela Constituição Federal, pela democracia que suamos para reconquistar, pelo bom senso e pelos impostos que pagamos para termos serviço de qualidade.

Até entendo que os leitores particularizem os problemas, que se refiram imediatamente aos seus próprios percalços, mas, que fique 
patente que não enumero pessoas. Se o serviço está falho, há uma cadeia de eventos, organismos e pessoas que contribuem para isso. A nós cidadãos cabe cobrar a melhoria e a qualidade do serviço, em ordem e dentro da lei, aos responsáveis direto cabe corrigir os erros e nos ofertarem o produto na qualidade pela qual pagamos.

Esconder os problemas não ajuda ninguém. Se os médicos me narraram informalmente os casos que aqui relaciono, não o fizeram por despeito ou para “puxar o tapete” de quem quer que seja, mas por também querem melhores condições de trabalho e para bem atenderem ao cidadão.

As empresas, hospitais, restaurantes e lanchonetes, farmácias e todos os estabelecimentos que trabalham com alimentos e ou remédios têm que renovar anualmente seus alvarás sanitários e isso é feito. Ótimo. Mas a fiscalização no restante do ano é falha, não há como negar. Por que isso acontece, Prefeitura, Secretaria da Saúde e Vigilância Sanitária é que podem e devem nos informar. Por que os estabelecimentos que não apresentam tal alvará não são multados ou fechados, que os órgãos competentes nos digam. Como cidadão me preocupo, manifesto minhas preocupações e peço encarecidamente que haja fiscalização efetiva, dentro da ordem e da lei, repito.

 
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